Marcos, o ídolo que sofria junto com você

O sujeito careca que pegou esse pênalti aí não é o maior ídolo do Palmeiras por ter conduzido o time ao grande título de sua história, em 99. Nem por causa da espalmada tão cheia de significado no ano seguinte, após o chute de Marcelinho Carioca. Muito menos pela atuação exuberante na campanha do título mundial da Seleção Brasileira, em 2002. Ele é gigante pela maneira como sempre encarou a derrota.

Marcos teve um auge curtíssimo. A bem da verdade, foram apenas quatro anos de partidas memoráveis, se tanto. Mas escreveu, com sua carreira, um roteiro dramático completo: com o espetáculo improvável de substituir Velloso machucado e assumir a liderança de um time de craques; a ascensão de desconhecido a santo em três meses; o descenso ao inferno, menos de um ano depois, com a falha quase infantil na decisão do Mundial de Clubes; a volta por cima, com o pentacampeonato em terras nipônicas.

Tremi na base quando entrevistei Marcos pela primeira vez, numa saída de gramado. Exatamente a 27 de janeiro do ano passado, numa partida contra o Paulista. (Disfarcei bem, sem voz trêmula, diga-se de passagem). Entrei nesse negócio de jornalismo muito porque gostaria de ter a chance de conhecer pessoas incríveis e inacessíveis para quem não está no meio. E foi legal demais cobrir algumas das 27 partidas disputadas pelo goleiro em 2011. No entanto, não foi nenhum tipo de grandeza característica de um ser do Olimpo que me chamou a atenção nos poucos encontros com ele. E sim sua simplicidade. Marcão é um ídolo de carne e osso. Um cara que escolheu defender as cores que ama, apesar do assédio europeu, e no ano mais triste da história do clube: logo após o rebaixamento à segunda divisão.

Mais que tudo isso: na minha geração, nenhum jogador representou melhor seu torcedor. Marcos fez isso sempre que desandou a falar bobagem após cada fiasco recorrente do Palmeiras nos últimos anos. Sempre que ficou ensandecido e tentou subir à grande área do adversário para descolar um cabeceio salvador. Sempre que ficou puto a ponto de tomar frangos homéricos, como no famoso chute no vazio que tão bem representou a derrota por 7 a 2 diante do Vitória e as equipes ridículas de 2003.

É claro que suas glórias, Marcão, foram os títulos – pouquíssimos, perto da quantidade que merecia ter conquistado. Mas você foi gigante mesmo por causa de todo o resto.

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Atualização: matéria em director’s cut version, com novos personagens e mais detalhes que não couberam no áudio anterior.

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Cadê o choque de realidade dos santistas?

Os brasileiros descobriram ontem o Barcelona. Nem falo de boa parte da imprensa, que cometia o sacrilégio de não acompanhar esse time de perto, jogo a jogo. Mas sim das minhas tias e primas que, no jantar de família, me perguntavam: “Nossa, mas o que foi aquele atropelamento? Esse tal de Neymar não jogava muito?”.

Joga sim, tia Dalva. Mas apenas brinca de matar passarinho com espingarda, quando perto das armas de raio laser desses alienígenas que são Messi e companhia.

Só que não preciso exaltar aqui o Barça. Nem precisava o Santos ter acompanhado o monólogo blaugrana de uma posição privilegiada – o lado interno do campo. Poderia ter alguma proposta diante desse quase imbatível rival.

Seis meses atrás, Muricy Ramalho e companhia tinham condição de se perguntar e decidir: “Como vamos fazer para encarar o Barcelona?”. Entre as opções: postar-se totalmente atrás da linha da bola, rebatendo tudo e aguardando um lance de genialidade de Neymar; marcar sob pressão a saída de bola, como já tentou fazer o Real Madrid, com relativo sucesso; ir para cima, como propagandeou o próprio Muricy… Ou qualquer outra. Mas não foi possível enxergar nenhuma estratégia no jogo mais importante da vida dos caras.

Tivesse planejado tudo direitinho, a chance de dar errado era imensa. Como não o fez, a jornada tornou-se vexame. Um baile porque o time estava diante do melhor do mundo, mas também porque jogou num esquema com três zagueiros utilizado apenas seis vezes durante a temporada; um baile porque decidiu inicialmente marcar sob pressão, sem que tivesse jamais feito isso antes – e sem jogadores com essas características do meio para a frente, e sem antes montar um calendário de trabalho especializado com o preparador físico.

A paulada já foi. Mas talvez pior seja o discurso pós-jogo de alguns. De Muricy, que tenta partilhar a culpa com a imprensa e a torcida, que não aceitam um estilo de jogo sem atacantes (ora, a questão aqui não é tática, e sim filosófica); de Léo, credor de que o Santos foi melhor (!!!) no começo do segundo tempo enquanto o Barça descansava; de Ganso, analista lunático, ao dizer que o time dele teve muitas chances durante a partida. [Abaixo, sonoras de Léo, Ganso e Dracena.]

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Não deve ser fácil mesmo pensar após ser atropelado por um trator. Espero que revejam seus argumentos e passem a raciocinar como Neymar. Compreendam que assistiram uma aula de futebol – a ponto de, a partir de agora, serem obrigados (como todos os clubes do país) a rever muitos conceitos.

Ver também: O Santos está brincando com o Mundial, postagem de 23 de outubro.

Vergonha alheia da festinha da CBF

Vergonha alheia da festinha da CBF

Juro que o relato dos eventos a seguir não contém exagero por licença poética – ou pura esculhambação. Ele conta, de maneira objetiva, a sucessão de trapalhadas protagonizadas pela trupe de Ricardo Teixeira (adorei o estilo de anjinho com auréola, aí na foto) na premiação dos clubes campeões nacionais e dos melhores jogadores da Série A do Campeonato Brasileiro.

De lá, ao vivo, bati um papo com Cristina Coghi, Marcelo Gomes e Mayra Siqueira, na CBN:

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Cena 1: duas horas antes do dito evento, cheguei ao local – o imponente auditório do Ibirapuera, em São Paulo – e percebi que teria de ficar juntamente com outros 80 jornalistas, mais ou menos, espremido num corredor com um metro de largura. Uma estrutura metálica separava o bando dos atletas e demais convidados, que desfilavam por um tapete alaranjado até a porta do salão. Muito pior do que qualquer entrevista coletiva pós-jogo no Brasil (já longe de ser o ambiente ideal para um trabalho digno). Como tudo sempre pode piorar, começou a chover.

Situação 2: torcedor do Corinthians, imagine a base de seu time campeão. Ela tem Ralf e Paulinho, certo? Primeiro e segundo volantes, como se chama classicamente. Não concordo com o critério da premiação, que dividiu os jogadores pelo lado do campo. Mas, já que assim o fez, tivesse ao menos acertado as posições. Paulinho foi escolhido o melhor pela direita, Ralf pela esquerda. E o certo é o contrário. Pior: Thiago Neves e Ronaldinho foram indicados, ambos, a melhor meia pela esquerda. Então, no Flamengo, eles jogam batendo cabeça? E por que Damião concorreu com Neymar, e não com Fred?

Constrangimento 3: Réver foi eleito melhor zagueiro pela esquerda. Não concordo com isso. Mas esse não é o problema. O lance é que Thiago Leifert, antes de entregar o prêmio a ele, disse que a votação não considerava a última partida: um sacode de 6 a 1 do Cruzeiro sobre o Atlético. Aí Luciano Huck perguntou: “Você quer falar algo?”. Ao que o rapaz respondeu, totalmente sem graça: “Nada a declarar”. Diria Sandra Annenberg, com toda razão: “Que deselegante!”.

“Celebrimicos” 4: Aldo Rebelo subiu ao palco com alguma intenção. Só não sabia qual, exatamente. Ficou olhando para ver se alguém lhe dava uma pista. E Luciano deu a dica: “Leia aquilo ali”. Era o texto do nosso ministro. Pior foi o papelão em que botaram Geraldo Alckmin. O governador ficou esperando, no palco, por um minuto e 45 segundos até chegar o envelope com o nome do homenageado. E teve de improvisar, com todo o carisma concedido a ele por Deus. Ainda mais vergonhosa foi a participação das globais Fernanda Paes Leme e Christine Fernandes acrescentando cultura futebolística aos espectadores ao ficarem dois minutos falando sobre o nada.

Sumiço 5: grande vencedor da noite, o zagueiro Dedé (que bateu Neymar e Liedson num prêmio de votação popular) teria nesta segunda-feira um momento de glória. Teria, se a produção do evento não o tivesse perdido no momento do anúncio. Chamado ao palco para colher os louros da vitória, ele deixou Huck e Leifert com cara de paspalhos, enquanto concedia entrevista a Galvão Bueno, do lado de fora.

Esta aqui é a reportagem que foi ao ar pela CBN, contendo entrevistas com Tite e Dedé:

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E tem mais. Muito mais. Como os OITO MINUTOS intermináveis de um quadro boboca do Zorra Total passando no meio do prêmio. E também a entrevista/piada com o árbitro Leandro Vuaden – enquanto outros jogadores nem puderam falar “oi”. Está tudo aí embaixo, compilado num The Best Of… Tente não chorar. Se não conseguir, as risadas artificiais (no melhor estilo de Chaves) podem ajudar.

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Foto: Rafael Ribeiro/CBF

(Ou: um prognóstico nada convencional de Corinthians e Palmeiras.)

Bem, são duas e trinta e nove da manhã. Troco tuítes com o povo da redação, no maior rebuliço. Não há Cristo que me faça dormir, tamanha a ansiedade. Daqui a catorze horas e pouquinho acontece aquilo pelo que a semana foi diferente, especial, mais legal do que as outras.

Se você não reparou nesse clima, nessa movimentação, pare de ler agora. Ou então ouça aí embaixo a explicação que fui buscar num poço de sabedoria: meia dúzia de cachaças perdidos no Largo Santa Cecília, que jogavam damas à luz do dia numa sexta-feira de sol. Lá o Corinthians e Palmeiras já está rolando faz tempo. E vai ser assim, ó:

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O triunfo dos técnicos gente boa

O triunfo dos técnicos gente boa

Duas historinhas rápidas sobre Tite e Ricardo Gomes (e vamos incluir Cristóvão Borges no combo):

Era uma tarde qualquer de treinamento no Corinthians. Quando nosso amigo que “fala muito, fala muito” interrompeu um colega repórter de maneira abrupta durante um questionamento em entrevista coletiva. Nada demais, coisa corriqueira. No entanto, como ele é um homem de bons princípios e ficou sem jeito por ter atrapalhado o trabalho de outra pessoa, foi lá e se desculpou com ela – ao microfone e, depois, pessoalmente. Meu amigo jornalista recebeu o pedido de perdão até com certo desconforto, tão inusual foi a situação. Essa foi a primeira história. Vamos à segunda.

Era uma noite qualquer de jogo entre São Paulo e Vasco, no Morumbi. Quando nosso amigo ex-zagueiro de Seleção Brasileira, com passagens vitoriosíssimas pela França, como atleta e treinador, comandava a equipe carioca. Por acaso, ele havia ganhado a partida, então se pressupõe que o sujeito estivesse de bom humor. E estava mesmo. Mas no reino dos técnicos do Olimpo, nem mesmo nessa situação se vê o cara cumprimentar os jornalistas um a um, esticando a mão para eles, ao final da coletiva. Coisa de gente bem educada. Mais do que isso: coisa de quem deixou boas relações sociais em São Paulo – afinal, Ricardo havia trabalhado por aqui recentemente e convivido com setoristas do clube tricolor. E essa foi a segunda história.

Não acho que treinador tenha de fazer média com a imprensa. Cada um executa seu trabalho. Mas, se for possível, o contato não precisa dar choque, né? Enfim, são papos de bastidores dos quais faço parte, por isso escolhi os exemplos para celebrar o sucesso de alguém gente fina. Não importa para onde o título vai amanhã. Só fico feliz porque, pela noite, um cara muito bacana estará contente. A reportagem abaixo é uma brincadeira sobre tudo isso.

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Fotos: Divulgação

O que o povo de Israel acha do Brasileirão?

O que o povo de Israel acha do Brasileirão?

Dia desses acordei com essa pergunta instigante na cabeça. Dei um Google para descobrir o nome de um comentarista futebolístico na Terra Santa. Descolei uma lista telefônica de Jerusalém e… Não, é tudo mentira, claro. Na verdade, conheci Shlomi Daniely, do canal pay-per-view Sport 1, por intermédio do meu colega de CBN Roberto Nonato, o cara das relações internacionais, como dá para perceber pelo tom do blog dele. Mas isso não importa.

Interessa é que Shlomi é jornalista e transmite jogos do Campeonato Brasileiro na televisão de seu país. E me contou várias coisas legais: que ninguém lá entendia o sistema de disputa com mata-mata; que todo mundo lá conhece Neymar; que o Santos ganhou uma baita projeção por causa do garoto e mais um monte de coisas escritas aí embaixo e também em trechos disponíveis em áudio na reportagem deste post aqui. Leia a entrevista e cornete na caixa de comentários, vai.

Quantos jogos do Brasileirão o canal transmite por semana?

Nos últimos três anos temos passado sempre duas partidas: uma sábado, outra domingo. São sempre os jogos principais do campeonato nacional. Neste ano começamos a transmitir também o Campeonato Paulista. As pessoas têm acompanhado, gostado dos jogadores e aprendido as escalações de Corinthians, São Paulo, Palmeiras…

E são esses os times mais comentados por aí?

Como nós transmitimos sempre os mesmos jogos da televisão brasileira (com imagens da TV Globo), chegam por aqui, principalmente, as informações sobre Corinthians, São Paulo, Santos, Flamengo e Internacional. Mas isso varia de acordo com o desempenho das equipes.

Se você pudesse montar uma lista com as ligas nacionais preferidas pelas pessoas em Israel, em qual colocação estaria o Campeonato Brasileiro?

A Premier League é a número um em Israel. As partidas dos times ingleses passam aqui há mais de 20 anos. Depois, vem a liga espanhola, porque gostam de ver o Barcelona e o Real Madrid. Então aparece a liga italiana e, depois, vêm os demais torneios, como o russo, o brasileiro e o argentino.

Por que as pessoas têm se interessado mais, nos últimos anos, pela liga brasileira?

Cinco anos atrás as pessoas daqui não entendiam o sistema de disputa utilizado por vocês. Não compreendiam direito o mata-mata, muito menos essa história de Paulista, Carioca e as demais ligas regionais. Mas agora existe um campeonato organizado com os principais times. Dele, sai um campeão, e os espectadores entendem o sistema – se você ganha, fatura três pontos; se perde, não ganha nenhum. É como na Europa, e por isso as pessoas têm gostado mais de assistir.

A presença das grandes estrelas também incentiva a audiência, certo?

Sim, é claro que as pessoas gostam de seguir o Ronaldinho, o Luís Fabiano. Saber o que eles estão fazendo hoje, longe da Europa. Mas elas gostam mesmo é de ver os novos rostos. Porque sabem que, um dia, eles vão jogar nos grandes clubes do mundo. Aí, quando chegarem lá, nosso telespectador vai poder dizer que já os conhece, pois assistiu o último Campeonato Brasileiro.

Então as pessoas aí devem conhecer muito bem o Neymar…

Elas o conhecem e o amam. E, para dizer a verdade, querem que ele jogue no Real Madrid logo para que possam vê-lo mais vezes na televisão de Israel. Aqui o Campeonato Espanhol passa na TV o tempo todo.

Mas sua audiência conhece o Neymar superficialmente, como um atleta jovem que atua no time do Pelé, ou realmente acompanha cada passo da carreira dele?

Eu penso que as pessoas viciadas em futebol sabem que Neymar é um garoto talentoso do Brasil e será um dia como Kaká e Messi. Mas não acho que os telespectadores, em geral, conhecem a pessoa do Neymar profundamente. Talvez o assistam uma vez por semana no Brasileirão. Mas eles certamente o enxergam como um nome quente no futebol brasileiro no momento e pensam que um dia, em breve, ele irá à Europa para se tornar uma super estrela.

Seu canal tem transmitido mais jogos do Santos, por causa do Neymar?

Sem dúvida. Quando sabemos que Neymar vai começar jogando, tentamos passar o jogo. Mas, quando a partida não tem o Neymar (como quando ele está na seleção nacional), nós preferimos passar outro time. Como o Flamengo, que tem o apelo de contar com o Ronaldinho, ou então privilegiamos o São Paulo, com o Luís Fabiano.

A notícia não estava lá. E, de repente, estava

Palmeiras 1 x 0 São Paulo – Pacaembu – 27 de novembro de 2011

Só se falava de outra coisa neste domingo, em São Paulo: Grande Prêmio de Fórmula 1, vestibular da Fuvest e, claro, da jornada corinthiana em Florianópolis. Cheguei ao Pacaembu duas horas antes do clássico entre Palmeiras e São Paulo. Diziam que haveria um jogo por lá, mas o clima do estádio era deprimente. Meia dúzia de gatos pingados na porta da casa que o torcedor alviverde insiste em não adotar. O são-paulino encheu a pequena parte que lhe cabia e jogou bombas no adversário. Mas não terminaria o dia sem antes comemorar junto com ele.

A partida terminou em 1 x 0, gol de Marcos Assunção, complicando o adversário na disputa pela vaga na Libertadores. Isso você já sabe e pouco importa. A notícia aconteceu quando o árbitro já tinha apitado o fim da partida. O Vasco empatava com o Fluminense em 1 x 1 a cerca de 600 quilômetros dali, resultado que dava o título antecipado ao Corinthians no Brasileirão. À beira do campo, eu conversava com o goleiro Deola sobre o jogo e projetava um dérbi esvaziado na última rodada, uma simples entrega de faixas. Quando, de repente…

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Ao ouvir essa explosão de alegria dos torcedores palmeirenses e são-paulinos, que cantavam juntos pela desgraça alheia (e impossibilitavam, por alguns segundos, a continuidade da entrevista), a frase proferida por Tite alguns minutos depois só pode ser encarada como piada: “É pobre querer se motivar para ferrar o adversário”. Não é, caro Adenor. É o que de mais rico pode existir no futebol. É rivalidade pura e simples. É questão de honra, como disse Valdívia também no gramado, fazendo força para conter o riso.

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Não tenha dúvida: o discurso politicamente correto dos palmeirenses, incluindo as palavras vazias de Felipão dizendo que o time não fica satisfeito em tirar a alegria do rival, esconde um sentimento de título, caso a azedada no caldo corinthiano se concretize. Se eu pudesse escolher um lugar para estar no próximo domingo, este seria o vestiário do Palmeiras na pré-decisão. Queria eu ser uma mosquinha para acompanhar o inferno que Felipão vai fazer na cabeça dos jogadores, antes de eles subirem para o campo…

A foto que ilustra o post é do Gabriel Uchida, que tem um blog excelente, o Foto Torcida.

Como é difícil ganhar um Brasileirão

Como é difícil ganhar um Brasileirão

Quando você não é um craque, está penando em vários clubes pequenos e médios da Série B e já tem 25 anos de idade, ser campeão brasileiro não é uma coisa que passa pela sua cabeça. A essa altura do ano passado, o rapaz sorridente da foto acima estava exatamente nessa situação. Havia sido revelado pelo Guarani, seis anos antes. Tinha chamado a atenção do Atlético-PR. Mas, sem se firmar, estava cansado de rodar por equipes como o Vila Nova.

Um ano atrás, Willian fazia uma boa campanha com o Figueirense. Nada mais. Só que impressionou o pessoal no Corinthians pela vontade com que jogava. Contratado, vestiu uma camisa feita sob medida. Hoje é titular incontestável (deixando Alex no banco, por exemplo). E amanhã pode ganhar um título nacional. A reportagem abaixo fala sobre o dia do clube, mas também sobre o que deve estar passando pela cabeça desse cara simbólico num Corinthians sem ídolos, mas com garra.

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Foto: Divulgação

Jogador de futebol treina pouco

Jogador de futebol treina pouco

Nada pode ser mais irritante do que um escanteio cobrado no primeiro pau, exatamente na cabeça do zagueiro. Aí, depois de xingar o cara do seu time que cometeu tamanha grosseria, você pergunta para si mesmo: “Como pode um atleta profissional fazer isso?”.

A resposta é simples: a cultura do boleiro sufoca qualquer tentativa de desenvolver uma filosofia de transformação de peladeiros em atletas de alto nível. Provoca a mimimização do futebol, concede a jogador meia-boca o poder de derrubar técnico e torna o velho migué prática recorrente. A verdade é que nossos futeboleiros treinam pouco. Ou treinam mal.

“Futebol está ligado a dança, samba, boate. Uma cultura que não tem nada a ver com a cultura de esporte de rendimento.” A frase é de Antonio Carlos Gomes, PhD em treinamento esportivo. Bati um papo com ele para a reportagem abaixo, em áudio.

Também fiz um exercício de comparação. Fui a treinamentos de basquete e voleibol. Conversei com pessoas como Cláudio Mortari, treinador do Pinheiros, e Giovane Gávio, do Sesi. Gente que treina de verdade, dá porrada na bola para o atleta defender, em exercícios específicos de fundamento. Para a todo momento para orientações. A disparidade é óbvia: os caras em quadra cuidam de seus coletes, buscam bola perdida… Em suma, trabalham sério.

Há algumas semanas, Felipão aplicou treinamentos específicos para laterais. Depois, para atacantes. A imprensa até estranhou. Quase na mesma época, Leão mostrou como o esporte é amador: deu castigo de polichinelos para quem errasse finalizações. Polichinelos! Herança militar no esporte. Nada a ver com a era do profissionalismo.

Aí você vai dizer: “Mas futebol cansa muito mais que vôlei e basquete. A comparação é absurda”. É claro que a intensidade não pode ser a mesma – qualquer fisiologista fala isso. Mas, enquanto se recupera, o “atleta” não pode treinar fundamento? Não pode trabalhar em jogadas ensaiadas (coisa que está rareando no futebol brasileiro)?

Boleiro pode fazer muito mais. Só que, para isso, precisa deixar de ser boleiro.

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Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Quem vê o Brasileirão fora do País? Muita gente

Sabe por que Neymar está na lista dos 23 melhores jogadores do mundo – e sem nenhuma contestação lá fora? Porque ele é um baita craque, candidato a mito, e quanto a isso não há dúvidas. Mas ele está lá, também, porque hoje tem muita gente assistindo o Campeonato Brasileiro pelo mundo. Duvida?

Todo sábado e domingo, o locutor Jon Cotterill, um inglês que mora em São Paulo, manda os jogos do Brasileirão para 198 países pela TV Globo. Este número representa um crescimento assustador de mais de 60% em relação ao de três anos atrás.

Bati um papo com Cotterill para a reportagem abaixo, que foi ao ar pela CBN. E também conversei com Shlomi Daniely, um jornalista da televisão israelense que transmite jogos dos times daqui. Ele confirmou como um pouco de organização faz toda a diferença: disse que as pessoas de seu país, alguns anos atrás, não entendiam o sistema de disputa com playoffs, muito menos os torneios regionais.

Neymar é um craque. Mas é, também, um fruto do mínimo planejamento no futebol. Passa pelas categorias de base. Pelo fortalecimento dos clubes, que com mais dinheiro de TV podem manter atletas desse nível jogando aqui. E, principalmente, pela profissionalização das ligas. Afinal, quando elas tiverem o glamour de uma NFL, o Cabeça-de-Galo não vai precisar jogar uma Champions League para ser o melhor do mundo.

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Foto: Santos FC / Divulgação